segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Não te falo mais nada.

por Ana Marques

Não te falo mais nada.
Meu corpo não tem espaço para tanta pancada e meu fígado já falha da raiva que eu guardo. Não tenho voz para te acusar, não tenho sangue para me defender. Vivo dos desvios – às vezes rápidos e às vezes lentos – dos tapas que voam para todo lugar. Meu corpo sacode no ar, não é de alegria ou gozo. Sacode da surra que me espera ao final de um dia ruim.

Que vida é esta?
A igreja e o padre não respondem. Resigno a mim mesma em orações que não faço. Não vou mais à missa, não acredito em mais nada e dia a dia a vida segue sem cessar.

Não cessam os socos, que às vezes chegam aos filhos. Filhos estes que também não param de chegar.

Chega!

Não te falo mais nada.
A odisséia remonta o espetáculo. Retoma o palco e lá vou eu. É mais longa a sessão de porrada e quase por nada eu durmo no chão. O sangue se espalha, eu limpo, cansada, vou passando o pano no chão.

A boca não abre de tão inchada, os dentes já moles reclamam dentista, comida, dignidade e um pouco de paz. Não tenho mesmo para onde ir, os dentes mesmo que caiam não sujam o chão e me deixo ficar quieta e parada esperando o próximo dia: de paz ou de cão.

E o cão late de fome, crianças desnutridas choram no meu ouvido, o estômago dói de tão vazio. A fome chega de todos os lados, mas a comida faz tempo parou de chegar.

Chega!

Não te falo mais nada.
Meu corpo vazio é surrado ao extremo. O coito que agüento não é interrompido e em todas as noites tenho de suportar. Teu corpo invade, estupra, machuca. Teu beijo nojento submete minha vida, a mão suja explora e sacia uma sede de domínio que não posso entender. Entrego a honra que não existe. Que vantagem teria em dizer “não”? Tanta pancada pra quê? Toma essa carne, satisfazer tua fome é a minha função.

Mais uma noite e mais um dia, você me toma em qualquer lugar. Criança que vê, silencia e aprende: cala este grito, segura este choro e abre as pernas para o braço não descer. Para teu prazer meu corpo moído não chega, mas prazer para mim há muito parou de chegar.
Chega!

Não te falo mais nada.
Minha arma dispara.
Seis tiros em teu peito que eu não quero te ouvir.
Crianças na rua, orfanato, abrigo. Talvez a casa dos avós?
Não te falo mais nada e nem vou te ouvir.
Você já era.
Para mim foi tanta porrada, para ti foram seis tiros no peito. Eles calaram teus gritos, as tuas ofensas, a dor, a fome e a humilhação.
Se mais dor chega, junto com teu último suspiro, de qualquer jeito esta dor nunca parou de chegar.

Então chega o fim.

P.S.: A história é baseada num fato. Na lembrança que eu guardo de uma vizinha com vida semelhante e que o final foram quatro tiros no peito do marido e a fuga com três filhos debaixo do braço. Dei aula para um dos meninos dela e a conheci antes do acontecimento narrado nesse conto. Nunca tinha visto tanta violência guardada numa criança e poucas vezes tinha visto uma mulher tão infeliz.

Que a violência não seja suportada. Nunca.
Que ela seja denunciada. Sempre.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

E mais uma novela se foi...


Por Ana Marques

Já contei que de vez em quando, principalmente nos capítulos finais, eu costumo assistir novelas?

Para quem, como eu, é feminina (não gosto do termo "feminista") e, de forma geral, não gosta de novelas, isso pode soar incoerente.

Mas juro, não é.

É ali, naquele momento do "felizes para sempre" e do "Fim", que acontecem os maiores atentados contra a inteligência e contra as mulheres de forma geral. Ali eu tenho material para discursar por horas e mais horas sem parar.

A defunta "Caminho das Índias" não seria diferente.

Essa foi uma novela violenta. A mulherada bateu e apanhou sem dó. Foi Melissa voando, Yvonne sangrando, Sílvia espatifando espelho. Um doloroso embate. Mas ali, enfim... eram mulheres brigando por serem enganadas ou para tentarem continuar enganando. Diferente do meu post "Eu mato aquela desgraçada", em que falo sobre as mulheres que culpam outras mulheres pela traição dos maridos, na novela a briga era porque a "dublê de mocinha" Yvonne desejava ardentemente se dar bem (financeiramente falando) em cima do marido (que não foi aliviado de sua responsabilidade) e da amizade das "garotas" ali presentes.
Até eu estapeava uma sacana dessas...

Se bem... rs acho que não. Me fazer descer do salto não é tão fácil assim. ;)

Mas enfim, voltando à vaca gélida (expressão emprestada de minha irmã Tatiana)...

Tudo isso acima não me causou quase furor nenhum...
Porém, quando vi a cena em que a Tônia - para quem eu finalmente batia palmas - abrir mão da bolsa de estudos para casar com um esquizofrênico... meu sangue ferveu! (ôôôôôôôôôôôôô clichê... mas é real)

Não consegui aguentar.
Como assim?

É aquela balela de novo de "amor tudo pode", "por amor a gente faz tudo", "o amor vence todos os obstáculos" e mais um monte de mentirada que nos contam desde a infância, forçando nosso sacríficio e nossa rendição?

Porque o que a Tônia (a personagem, é claro) fez foi suicídio.

Ela se matou por amor ao Tarso. E um Tarso, diga-se de passagem, que vai virar um peso. Que vai se tornar uma prisão. Que vai ser a morte (dela) lenta e sem esperança, a morte que acontece por uma dor que todos os dias encontrará eco na vida que ela veria pela janela, mas que deixaria de viver. Na carreira da qual vai abrir mão, no filho que se os tiver ela vai quase criar sozinha, nas constantes vezes em que ela teria que cuidar das crises dele e não teria ninguém para segurar a sua própria onda.

É viver só, sem estar só.

Mas o que realmente me incomoda não é a escolha em si. Conheço pessoas que fariam isso, por um tempo, e que quando pulassem fora (porque uma hora as pessoas não aguentam essa imitação de vida) seriam condenadas como desalmadas e insensíveis. Mas fariam ainda assim, jurando que jamais sairiam dali e viveriam para todo o sempre aquele amor.

Porém, o que me incomodou de verdade, foi que nunca vi um homem sendo escalado para um papel desses em que abrisse mão da própria vida para cuidar de outra pessoa. Ser um enfermeiro, como bem definiu o irmão fictício da garota na trama, não é tarefa para homens.
Mulheres se sacrificam.
Mulheres sofrem.
Mulheres abrem mão de tudo para viver o amor.

Só nessa novela temos alguns bons exemplos: Camila que larga tudo e vai viver num país estranho e cheio de costumes diferentes por causa de seu amor por Ravi. Tônia que larga tudo por Tarso. Maya que abandona a família para fugir com Bahuan (não vou entrar em detalhes do desenrolar da novela, o povo viu e quem não viu tem tudo no youtube e na globo.com).

Por que só a mulher abre assim, mão de tudo, pelo homem amado?
Por que é tarefa dela sacrificar a própria vida e a sanidade (muitas vezes) baseada nessa mentira?

Algo que aprendi na minha vida é que amor não é o bastante.
Só amor não faz ninguém feliz, não alimenta o espírito, não liberta a alma.

Por que, nesse ou em qualquer outro mundo, a mulher deveria oferecer a própria vida em troca de viver o que deseja o próprio coração?
Quem pode ser feliz, se estiver morto por dentro?

O amor, esse tipo de amor, apenas aprisiona e exige oferendas que jamais deveriam ser oferecidas.

Coitada da Tônia... ainda bem que depois das palavras "Fim", não vai dar pra gente ver como daqui há uns 5 anos ela vai ser paciente do Dr. Castanho também, completamente deprimida e com tendências suicidas.

Pena mesmo... talvez esse choque de realidade acabasse um pouco com o mito desse amor romântico.