domingo, 31 de maio de 2009

Solidão e Competição

fotografia por Robbert Koene


Por Persephone


Competição. Palavra de ordem nas conquistas amorosas, na vida profissional, entre os amigos, no caminho espiritual. A lealdade, tão comentada e solicitada, é do dia-a-dia extirpada. Amigos são rivais, superficiais, descartáveis. Amores evidenciam nossas falhas diante do outro. Essa competitividade acirrada tem estimulado a desunião e com isso as pessoas sentem-se cada vez mais solitárias. Normalmente são incapazes de perceber no outro mais do que um possível rival.

A amizade, base de todos os relacionamentos, fica esquecida em cantos empoeirados. A vida corrida, a desconfiança e a falta de tempo para convivermos com pessoas contribuem para que a solidez seja trocada pela conveniência. O trabalho, a vizinhança, um interesse comum, horários parecidos de acesso a Internet fazem com que as pessoas entrem em contato umas com as outras, mas não conseguem mostrar sentimentos reais: olhos levemente vermelhos, expressões tristes, palavras sem entusiasmo. A competitividade está em toda parte: estimulada pelas revistas, pelos comerciais, pelos comentários maldosos sobre quem foi mais esperto. Como cultivar um sentimento genuíno se não deixamos de ver no outro as oportunidades que nos roubou? Se desejarmos sempre ser melhor que alguém?

O amor - motivo de livros e poemas, sonhos dos românticos, tema de novelas - é conquistado em devaneios e relegado na realidade. Podemos deixá-lo perecer por competir para sermos tão bons quanto nosso parceiro, por esperar que nos forneça as provas que necessitamos, por acreditar piamente que qualquer conquista dele deve ser acompanhada de uma nossa, senão estaríamos abaixo do patamar onde nosso companheiro está. Obtemos tempo para o trabalho necessário, para o estudo solicitado e não cultivamos a relação existente, deixamos que ela seja infestada por ervas daninhas e que sua seiva seja sugada por parasitas.

A solidão - o mal do século - somente é letal quando isola a pessoa do mundo. Quando não existe em nossa vida ninguém capaz de ultrapassar a barreira das máscaras sociais e conviver conosco, com o ser humano por trás dos títulos que angariamos durante a vida.

Por isso, na contramão da globalização e da competitividade, torna-se a cada dia mais necessário que as pessoas percebam seu caráter diferenciado, seus talentos inigualáveis, sua força que não necessita de confirmação. Para ser único, não é preciso subir num pódio solitário e jogar champagne para a platéia, essas vitórias são efêmeras. Para ser único é preciso buscar conhecer-se, permitir que os outros nos conheçam. Mostrar-se como é para aquele com quem decidiu compartilhar a vida (ou o momento) e não como acredita que deva ser. É se maquiar para realçar e não para se esconder. Vivenciar as relações em todas suas nuances, deixando que a vida do outro una-se a sua.

Abrir espaço na vida para as pessoas fazerem parte dela. Correr o risco de ser traído e sofrer. Correr o risco de confiar e perder. Correr o risco de amar e ser amado pelo que é.

Este é o desafio da vida.

Reconhecendo e afastando a sensação de que é preciso ser melhor do que todos os outros, pode-se tirar das costas esse peso. E, inesperadamente, ver-se nos olhos dos outros e descobrir-se vivo.