domingo, 14 de setembro de 2008

Dias da mulher e novelas...

Será o dia da mulher, válido?

Minha conclusão é que são, sim, dias válidos.

Os dias criados, apesar da posse imediata que o comércio costuma fazer deles, tem como objetivo alcançar um número maior de pessoas em prol de uma determinada causa. Ter um dia para isso faz com que as pessoas consigam mais espaço para discutir o que precisa ser discutido, que vejam o que precisa ser visto, que comecem a compreender o que precisa ser compreendido.
O dia da mulher ressalta a condição da mulher de luta por uma sociedade mais igualitária, menos violenta com os fisicamente mais fracos, uma sociedade que deixe de ser veladamente preconceituosa enquanto é vistosamente politicamente correta. Todos somos coniventes com a violência com a mulher, até que eduquemos nossas meninas para não aceitarem a violência em hipótese alguma, até que eduquemos nossos meninos para que não sejam violentos em hipótese alguma.

E quando eu falo de violência, não é apenas uma questão da física: mas da emocional e da psicológica. É um fardo pesadíssimo tudo que se despeja nos ombros femininos. A mulher é mutilada a cada dia em que se dispõe a ser inteiramente maravilhosa e a dar conta de tudo. Ela é mutilada em sua essência de ser humano quando - nas entrelinhas - cobra-se dela que eduque os filhos, trabalhe, administre a casa, cuide das contas, mantenha-se bonita, invista na carreira, seja inteligente, culta e atualizada.

Ser humano é alguém que, por natureza, tem limitações. Ninguém dá conta de ser tudo ao mesmo tempo agora. Ninguém pode sobreviver, sem entrar num stress e culpa profundos, com uma montanha dessas nas costas. Mas no fundo, lá no recôndito de cada um (homem ou mulher, veja bem! A cobrança vem de todos os lados), quem é que não pensa assim: elas não quiseram direitos iguais? Não quiseram sair para trabalhar? Agora aguentem.

Ah, claro. As heroínas do movimento feminista da década de sessenta, as fantásticas trabalhadoras que fizeram greve (e foram queimadas) por uma jornada de trabalho menor, e milhares de mulheres que fazem diferença dia a dia querem realmente direitos iguais.
Mas em que momento do manifesto estava escrito: sobrecarga de trabalho? Em que ponto foi que a sociedade entendeu que a mulher ia acumular tarefas apenas?

Assim é fácil mudar a sociedade, não é mesmo?

A gente muda cosmeticamente. Finge que aceita que a mulher tenha direitos iguais, mas oprime cada uma delas com uma carga tão excessiva de responsabilidades e deveres que elas irão desejar ardentemente voltar tudo ao que era antes.

Quem são nossas heroínas de hoje?

Quem são as nossas representantes na mídia?Cadê as mulheres fortes para nos representar na TV, no rádio, nos comerciais?

O que vejo na TV são mulheres de plástico, siliconadas em todas as partes possíveis. Com discursos altamente ilustrativos sobre cosméticos, exercícios e a importância da beleza para vencer e ser feliz. No Brasil, pode parecer incrível, mas somos os campeões em lipoaspiração e na venda de cremes e afins.

Alguém lembra daquela "sem-terra" que posou nua para a playboy?

Ela tinha três filhos e uma situação complicada de vida. Mas sabem qual foi a primeira coisa que ela fez com o dinheiro pago pela revista? Quem apostou na lipoaspiração, ganhou.

Não seria sintomático isso?

A novela "Páginas da Vida" me deu um feedback interessante quando terminou. Eu vi alguns capítulos dessa novela como ia ser tratado o assunto da síndrome de down, e a promessa de falar sobre a indústria da cesariana no Brasil...

O tratamente da síndrome foi interessante. A menina, Joana Morcazel, era absolutamente uma gracinha. O assunto sobre cesarianas foi pífio. O discurso sobre preconceito racial foi inócuo. O preconceito contra portadores de HIV positivo foi praticamente inexistente.

Na novela tudo é escancarado, na vida real tudo é nebuloso. Ninguém agride (a priori) um negro porque ele tenta abraçá-lo, as pessoas se esquivam. As pessoas não lavam a mão freneticamente na frente de um portador de HIV, elas passam álcool quando o mesmo sai de perto. Raramente uma professora vai maltratar uma criança com síndrome de down, ela vai deixá-la de lado e tratá-la como alguém que tem que ter tudo mastigado. O preconceito (de uma forma geral) é sutil, velado, escondido.

Mas o ponto alto dessa novela foi outra coisa: foi o preconceito velado contra a mulher. Esse sim foi de uma realidade impressionante, talvez porque não tenha sido de propósito.

Povo, quem foi que ficou com o mocinho no final? Foi a menina casadoira, virgem, politicamente correta, simples, ingênua e apaixonada. Ou seja, o protótipo da boa moça dos anos 50. Quem foi que perdeu o mocinho por colocar a carreira em primeiro plano, por estar disposta a viajar em vez de casar, por não abrir mão de si mesma em prol do amor?

Ahá! Como eu disse: preconceito velado.

E no último capítulo eu ainda tive o desprazer de ver uma cena em que essa mulher - bem resolvida (ou deveria), bonita, profissional - dizer para a amiga para casar logo com o namorado, porque ela tinha ficado fazendo doce e o mocinho havia preferido a mocinha simples do interior.

A mensagem aqui foi clara: AGARRE SEU HOMEM! Antes que ele agarre outra...

Sendo assim, a pressão está aí. Somos pressionadas a ter profissão enquanto o amor não vem, enquanto os filhos não vêm. E depois pressionadas a sacrificar tudo, ou a parar de dar a devida atenção, em prol do que é nossa obrigação.

Ou seja: enquanto sua tarefa de verdade não chega, vocês podem brincar de direitos iguais.

Captaram?