Texto por Ana Marques
“As perguntas mais simples são as mais profundas.”
Richard Bach, em Ilusões
Richard Bach, em Ilusões
Passamos por outro dia da mulher. Então vou aproveitar para fazer uma simples pergunta:
Por que existe o dia da mulher e não existe o dia do homem?
Há 40 anos brigávamos pela emancipação feminina, pelo direito ao prazer e ao planejamento familiar, mas ainda fingimos orgasmos para não magoar o ego dos nossos parceiros. Renegávamos a nossa feminilidade para deixarmos de ser conhecidas como mulheres-objeto, mas balançamos a bunda em danças do creu, do tchan, do raio que o parta. Saíamos para trabalhar buscando independência, mas ainda apanhamos e defendemos o marido agressor na delegacia.
Quais foram as conquistas das nossas feministas? Qual a importância que demos aos nossos ídolos, perdidos em documentários passados e produzidos uma vez ao ano? Quantas vezes Leila Diniz deve ter se revirado no túmulo por nos ver submissas, ocultando nossos corpos, nossas verdades, nossos defeitos que gloriosamente faziam com que fôssemos mulheres de verdade?
Paremos de apagar a luz para nos esconder e acendamos a consciência.
O dia da mulher existe para lembrar a todos nós que ainda precisamos lutar muito para mudar o pensamento – nosso e dos homens - que ainda predomina: não temos que aceitar a violência, não temos que mentir para salvar o ego de ninguém, não temos que ceder sempre, não temos que ser excepcionais para termos um reconhecimento mediano, não temos que dar conta de tudo, não temos que ser maravilhosas o tempo todo, não temos que impedir o envelhecimento para sermos desejáveis.
Não temos que fazer nada que não quisermos apenas para agradar a outrem.
Sabem por que não existe dia do homem? Porque, aderindo ao lugar-comum, eles não precisam de um dia para lembrar de si mesmos, fazem isso todos os dias do ano.
Talvez esse seja o único aspecto que devêssemos imitar.
* texto inicialmente publicado na revista Tablado, em março/2008.


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