domingo, 20 de julho de 2008

Eu mato aquela desgraçada!


Texto por Ana Marques
Um dia, como todo e qualquer ser humano, nos juntamos em casais e, dentro de nossa sociedade, nos casamos e prometemos fidelidade, carinho, presença e apoio. Juramos perante o juiz de paz, a família, os amigos ou simplesmente um para o outro que estaríamos lado a lado em qualquer dificuldade.

Juramos e esperamos cumprir. Lua de mel, filhos e muitos pequenos defeitos depois, essa certeza parece não ter mais tanta força. Mas buscamos consertar ou simplesmente ignorar os problemas, tentando manter a união.

Porém, um dia, o cerne da união é atacado: um dos dois tem um caso. Pode ser algo fortuito ou duradouro, não importa realmente. Incluir outra pessoa numa relação que deveria ser a dois é uma quebra de contrato e um ataque à auto-estima do parceiro. Quando uma traição é descoberta, se for da mulher, uma boa parte dos homens simplesmente se separa e passa a xingar a mulher de nomes pouco honrosos para que ela fique eternamente marcada como pessoa volúvel e leviana. No entanto, quando a traição é masculina, independente da decisão feminina de se separar ou de ignorar o “erro”, algo muito semelhante acontece: a esposa traída passa a xingar a outra de nomes pouco honrosos para que ela fique eternamente marcada como pessoa volúvel, leviana e destruidora de lares.

Nos dois casos, não importa quem esteja traindo quem, a mulher é que sai como a "vadia sem moral".

O que vamos ouvir das mulheres ofendidas será “Eu mato aquela desgraçada!”, enquanto o pobre coitado do marido precisará ser reconquistado, trazido de volta ao lar, amado e acarinhado para que “não precise mais buscar na rua o que tem em casa”.

Vamos esclarecer uma coisa?

Ninguém força ninguém. Ninguém seduz um homem contra a própria vontade dele. Se o cara transou com outra fora do casamento, o fez porque quis. E se ele fez isso, o “desgraçado” que se deve desejar matar é ele. A pessoa com quem ele saiu não tem nada a ver com essa história. Ela não devia fidelidade e não prometeu ficar ao lado de ninguém. Ela não quebrou um contrato. No máximo, está tentando ser feliz. No mínimo, queria sair com alguém diferente e encontrou quem se colocasse à disposição.

Portanto, moças e senhoras, se o namorado/marido de vocês pular a cerca, lembrem-se de cobrar deles o que eles prometeram. Não cobrem de quem nada deve a vocês. Parem de xingar-se umas as outras. Parem de colocar a culpa umas nas outras. E lembrem-se, não existe nada mais emocionante para o ego masculino do que duas mulheres brigando por eles.



Então por favor, não colaborem! O ego dos rapazes já é inchado o suficiente para que a gente continue dando tanta munição!





* Publicado originalmente na revista Tablado.

Dia da Mulher - março/2008


Texto por Ana Marques



“As perguntas mais simples são as mais profundas.”
Richard Bach, em Ilusões


Passamos por outro dia da mulher. Então vou aproveitar para fazer uma simples pergunta:

Por que existe o dia da mulher e não existe o dia do homem?

Há 40 anos brigávamos pela emancipação feminina, pelo direito ao prazer e ao planejamento familiar, mas ainda fingimos orgasmos para não magoar o ego dos nossos parceiros. Renegávamos a nossa feminilidade para deixarmos de ser conhecidas como mulheres-objeto, mas balançamos a bunda em danças do creu, do tchan, do raio que o parta. Saíamos para trabalhar buscando independência, mas ainda apanhamos e defendemos o marido agressor na delegacia.

Quais foram as conquistas das nossas feministas? Qual a importância que demos aos nossos ídolos, perdidos em documentários passados e produzidos uma vez ao ano? Quantas vezes Leila Diniz deve ter se revirado no túmulo por nos ver submissas, ocultando nossos corpos, nossas verdades, nossos defeitos que gloriosamente faziam com que fôssemos mulheres de verdade?

Paremos de apagar a luz para nos esconder e acendamos a consciência.

O dia da mulher existe para lembrar a todos nós que ainda precisamos lutar muito para mudar o pensamento – nosso e dos homens - que ainda predomina: não temos que aceitar a violência, não temos que mentir para salvar o ego de ninguém, não temos que ceder sempre, não temos que ser excepcionais para termos um reconhecimento mediano, não temos que dar conta de tudo, não temos que ser maravilhosas o tempo todo, não temos que impedir o envelhecimento para sermos desejáveis.

Não temos que fazer nada que não quisermos apenas para agradar a outrem.

Sabem por que não existe dia do homem? Porque, aderindo ao lugar-comum, eles não precisam de um dia para lembrar de si mesmos, fazem isso todos os dias do ano.

Talvez esse seja o único aspecto que devêssemos imitar.

* texto inicialmente publicado na revista Tablado, em março/2008.

Príncipes e Pastéis

Ilustração por Weto Sena - fonte: http://weto-sena.blogspot.com/


Texto por Ana Marques

Existem algumas máximas que se perpetuam sobre as mulheres e vão se consolidando como clichês e estereótipos.

“Toda mulher tem medo de barata”.

Não é medo, ok? É nojo. Tudo bem. Pode chegar a se tornar um nojo que nos aniquila de tal forma que ficamos paralisadas, entre o desespero profundo e a busca insana de uma forma de sair correndo, mas continua sendo nojo.

“Mulher não sabe dirigir”.

Não vou usar a velha defesa: “mulher dirige mais devagar, é mais contida”, ou usar a famosa saída “até os seguros são mais baratos para nós”. Esse tipo de questão continua a cair no mesmo velho problema: generalização. Algumas de nós dirigem mal, outras dirigem bem. Ponto.

“Toda mulher espera o príncipe encantado”.

Ah... de todas essa é a pior. Entre livros de auto-ajuda ensinando as mulheres a abandonar o culto à Cinderela e palestras edificantes sobre o que fazer enquanto o amor não vem, o mais óbvio não parece vir à tona.

Ninguém nunca notou como todo príncipe – da Disney pelo menos – tem cara de pastel? Assim, pastel de vento. Daqueles que a gente nem se anima a morder porque é só o bafo quente, mas nenhum conteúdo. Nesses contos – Cinderela, Branca de Neve, A Bela Adormecida – o príncipe é meio bobo, cara de sonso, quase parece estar perdido no cenário errado.

Quem realmente está esperando um tipo desses?

Não, o que a gente espera é a promessa que vem com o príncipe: reconhecimento da nossa força, da nossa beleza, da nossa feminilidade, da nossa realeza.

Eu assistia, outro dia, a um episódio de uma série televisiva nacional, dessas que falam de mães modernas. Nele, uma das personagens leva a filha para uma apresentação na escola e, ao chegarem, a professora avisa que o menino que faria o príncipe não tinha vindo. Diante da indignação da mãe por cancelarem a peça, a menina diz “sem o príncipe não dá”. A parte que vem a seguir é absolutamente inspiradora, vou tentar transcrever o mais fielmente possível: a mãe olha a filha nos olhos e diz pausadamente “filha, às vezes o príncipe não vêm, tá? Vai se acostumando. Você é linda”.

Arrasador, não é?

Por isso, mulheres, dêem a si mesmas o merecido reconhecimento da força, beleza, feminilidade e realeza. O que é da gente, ninguém pode nos dar ou tirar, menos ainda um pastel de vento, não é não?

* Publicado originalmente na revista Tablado.